PRÍON: Como algo natural pode ser tão fatal?

Príons são proteínas naturais do nosso organismo, mas como elas se tornam algo tão prejudicial? Acompanhe essa matéria para entender.

Marcelo H. Macon

9/2/20263 min read

O que é um PRÍON

Um príon é uma proteína com formato errado que consegue se multiplicar sem precisar de DNA ou RNA (o que quebra o dogma central da biologia, que você já deve ter estudado antes, que diz que DNA forma RNA que dá origem à proteína). Usualmente, agentes infecciosos carregam seu próprio material genético para conseguir se replicar, mas no caso do príon não, ele é apenas uma proteína que se auto replica.

Isso ocorre pois todas as proteínas têm, além da sua sequência de aminoácidos, uma forma 3D específica (também chamada de conformação tridimensional). Essa forma é o fator chave que determina a função de todas as proteínas. No entanto, quando uma proteína se “dobra” errado e tem uma forma 3D modificada sua função também muda (mesmo com a mudança na forma, a sequência de aminoácidos permanece exatamente igual). E é daí que surgem os príons.

Por exemplo, no nosso cérebro, existe uma proteína chamada de proteína celular priônica, que tem sua função desconhecida mas está presente naturalmente nos neurônios. Quando essa proteína se dobra assumindo uma forma um pouco diferente, sua função muda e ela começa a se espalhar, degenerando o tecido nervoso e iniciando a doença.

Como a doença se propaga

A propagação ocorre quando uma proteína mal dobrada encosta em uma proteína normal, fazendo com que ela assuma a nova conformação anômala e assim continue se propagando, em uma cadeia semelhante ao efeito dominó.

  • Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ): a mais conhecida em humanos, geralmente esporádica (surge do nada, sem causa clara).

  • Kuru: ficou famosa por ter sido transmitida entre humanos na Papua-Nova Guiné por meio de canibalismo ritual.

  • Encefalopatia espongiforme bovina (EEB): é a "doença da vaca louca", que pode infectar humanos que consomem carne contaminada (causando uma variante da DCJ).

  • Scrapie: a versão da doença em ovelhas.

  • Insônia familiar fatal (IFF) e síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker: são formas genéticas, causadas por mutações herdadas no gene PRNP, que é o caso da família da Vallabh.

Um detalhe importante: a mesma doença pode surgir de três formas diferentes: esporádica (do nada), genética (mutação herdada) ou adquirida (por contato com material contaminado, como em transplantes ou carne).

Atualmente, a ciência desconhece porque as proteínas priônicas assumem um dobramento errado/prejudicial e o principal: a ciência ainda desconhece o mecanismo por trás da propagação, só sabemos que as proteínas priônicas causadoras da doença se replicam por contato.

Principais doenças priônicas

Porque é tão difícil de tratar?

  • Diagnóstico tardio: os sintomas (perda de memória, problemas motores, demência) só aparecem quando o cérebro já sofreu dano extenso. Não existe um exame de sangue simples e definitivo para pegar a doença nas fases iniciais.

  • Progressão brutal: uma vez que os sintomas aparecem, a doença costuma matar em meses.

  • A proteína "normal" já está lá: diferente de uma infecção viral, o alvo terapêutico é uma proteína que o próprio corpo produz naturalmente, então qualquer tratamento precisa ser muito seletivo para não prejudicar a função normal do cérebro.

Abordagem de prevenção

Como quando os sintomas aparecem já é tarde demais, a estratégia que vem ganhando força é: reduzir a quantidade da proteína PrP normal no cérebro antes que ela tenha chance de se converter. Sem "matéria-prima" (PrP-C), a cascata de conversão não consegue se propagar. Isso é feito com técnicas como oligonucleotídeos antisenso e edição genética de base única, que "silenciam" parcialmente o gene PRNP. Resultados em camundongos já mostraram redução significativa da proteína e aumento de sobrevida. A esperança é que isso avance para humanos com risco genético, tratando antes do início dos sintomas.

Consequências do silenciamento proteína priônica

O silenciamento do gene PRNP não resulta em complicações sérias ou doenças graves, no entanto pode afetar ligeiramente o cérebro reduzindo a plasticidade neural (responsável pela facilidade de aprendizado e memorização), alterando o ciclo de sono normal, dificultando a manutenção da bainha de mielina (a capa protetora dos nervos) e torna as células nervosas mais vulneráveis a danos por estresse oxidativo.

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